quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A eterna luta contra a mediocridade

Sem querer filosofar muito, podemos dizer que a pós-modernidade se caracteriza pela constante luta contra a mediocridade. Mais que contra o tédio, que foi nossa preocupação maior por tantos anos. Não se sente muito tédio hoje, a constante e absurda presença de inúmeras formas de entretenimento parece que pode preencher uma série de 'buracos' existenciais. Mas de forma medíocre. Os tais buracos podem ser sinceras dúvidas existenciais, problemas psicológicos e afins, e eles podem ser sarados pelo confronto com situações semelhantes encontradas na ficção, ou podemos simplesmente nos distrairmos, exercitarmos nossa compaixão por dramas e tensões que não são nossos. Ou podemos sentir uma alegria real por cenas e vidas alegres, despreocupadas.

Enfim, a cultura pop nos proporciona todo tipo de amortecedor, de anestésico ou analgésico para nosso problemas diários e para nossos problemas eternos. Nós consumimos e se a falta dos antigos meios de consolação nos enchia de tédio, hoje o tédio é facilmente saciado, exceto por uns poucos espíritos mais exigentes. Mas como eu disse antes, toda essa morfina é medíocre. É medíocre porque ela não enfrenta o abismo pessoal de cada um, ela apenas o cobre com um tapete puído. Não aborda o homem como ele é, mas o falseia. Não resolve conflitos nem pacifica as almas, ela só pacifica sentimentos e conciliar covardemente. Acaba com os sintomas, não com a doença.

Há outro fator ainda, o principal: o tédio só se derruba com o extasiamento. O homem é sensual, é uma criatura como as outras, que se esvai, só se satisfaz em seus apetites pelo esgotamento de todas a suas forças, todo o seu ser espalhado na sarjeta, na cama da amante, na maca prestes a desmembrar uma vítima. A mediocridade é o oposto disso, é um contentamento infantil, anestésico e que não completa nada, nada leva à perfeição. Permite descanso temporário ao monstro, mas jamais o doma. Só o êxtase. a completude sacia o homem e ainda lhe torna senhor, o reconcilia com a natureza.

Hoje é isso que mais se busca: êxtase. Não o êxtase qualquer, vulgar, a mera exposição, mergulho no caos. Isso é ainda muito para nossos homens e mulheres, é exagero. O que se busca é um detalhe, uma experiência. Sim, tudo se baseia na experiência. Não uma vulgar nem uma longa ou curta, ou uma orgiástica, imoral, destruidora ou criadora. Pode ser um instante ou uma longa semana. Um encontro, um sorriso, uma entrevista ou jantar ou balada. Uma revista ou livro. Filme ou seriado. Ou algo mais substancial, concreto. Ou mais fugaz e movediço. O que se busca é QUALIDADE.

Essa qualidade pela qual estamos obcecados, nós a buscamos onde pareça estar, onde nossos juízos estéticos e mesmo intelectuais julgam estar. E falamos sobre essas experiências, nos expomos, nos abrimos para o mundo, criamos a aura em torno da cultura antes desprezada. E assim vamos abrindo as consciências, aglutinando experiências, e nos revelando nesse encontro com o outro, dividindo essa qualidade, esse instante de êxtase proporcionado. Justa medida. O que se tem na qualidade das experiências é a medida perfeita, a dosagem exata do que precisamos, do que necessitamos para não nos perdermos de vez no nosso próprio abismo. E diretamente. Sem morfina.

Assim, pelo compartilhamento de informações, de vivências, se cria uma unidade, falsa é verdade, uma construção do homem, um homem que não existe, um homem superior. Tal homem é superior aos outros pela sua 'qualidade', seu gosto superior. Ele não é medíocre. Como poderia ser? Ora, tendo gostos tão superiores... o homem pós-moderno ignorou, em sua mania massificadora, que toda individualidade é uma Caixa de Pandora e é única e isso indispõe-no contra toda real unificação, classificação. Ignorar a unicidade das necessidades de um espírito, a unidade estética presente apenas no indivíduo e incapaz de se estender muito além, enfim, essa grosseira incompreensão das necessidades e de como cada arma de luta contra a mediocridade não é JAMAIS uma arma útil para qualquer homem... isso torna a vida monótona, a qualidade vira clichê, a vida se mediocriza.

Assim é a vida pós-moderna uma eterna luta contra a mediocridade.

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