quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Tu és responsável pelos pecados do mundo inteiro

Lendo um dos pensamentos dos monges, a necessidade de jamais julgar alguém faz eco aos conselhos do starietz Zóssima, de Dostoievski: "És responsável pelos pecados do mundo todo". O que isso quer dizer afinal? Como podemos ser responsáveis pelos erros, vícios, pecados de todas as pessoas do mundo? Isso é possível? Podemos carregar essa culpa toda, esse fardo pesadíssimo? Isso é mesmo verdade.

Ao se oferecer por nós na Cruz Vivificante, o Cristo nos recuperou do domínio da morte, fundou e purificou Sua Sacrossanta Igreja, e fez mais: ele reuniu a humanidade decaída e salva por Ele na união divina Consigo Mesmo pela força do Espírito Santo. Isso que é a Igreja: sacramento universal de salvação, a peregrina na Terra que anseia pela felicidade eterna no céu. É teantrópica, divina e humana, a única instituição humana fundada, fortalecida e defendida por Deus que nela atua, ama e protege Seus filhos amados.

Assim, temos a comunhão dos santos, a união e comunicação profunda de todos os filhos de Deus como uma corrente inquebrantável de amor, um amor tão forte, tão profundo, maravilhoso que quebra todas as cadeias e limitações da carne e mesmo do espírito humano. O homem se transfigura em nova criatura e inicia na terra sua caminhada de deificação, até ser transfigurado em novo homem e ser purificado, atingir o estado de santidade, o céu. Mas não está só nessa caminhada.

Você, que aspira à salvação, que quer encontrar o Senhor da Vida, o Bom Pai, o Dulcíssimo Senhor Jesus Cristo, o Espírito de Consolo, você que quer ser deificado, se transfigurar no homem novo, todos vocês, cristãos ortodoxos e heterodoxos sinceros na busca, vocês tem um maravilhoso exemplo, um exército inteiro de Santos, apóstolos, mártires e Padres, a interceder por nós com suas orações puras que sobem como incenso diante do Senhor, que ouve com carinho as preces dos seus filhos diletos, a Ele mais próximos.

O maravilhoso exército dos Santos em suas preces por nós, e nos pedidos de orações que dirigimos a eles, assim como dirigimos aos vivos e assim como rezamos a Deus pelos mortos não é nada mais nada menos que a prova de que não há mortos em Cristo, ou seja, o amor do Senhor por nós, na Sua Cruz e na Sua Ressurreição, quebrou todas as barreiras, mesmo as fronteiras da vida e da morte. Pelo batismo nos sepultamos com Cristo e com Ele ressuscitamos, destruindo a morte para nós.

Pela nossa deificação ou afastamento de Deus, garantimos a nossa alma um estado de luz beatífica ou de escuridão. E assim será até o Juízo Final. Mas não falo disso exatamente. Falo da comunhão dos santos.

É a comunhão dos santos que torna verdadeira a sentença: "Tu és responsável pelos pecados do mundo inteiro". O motivo é simples. A comunhão dos santos é como uma grande família onde nos ajudamos uns aos outros com orações e súplicas ao Senhor e, mesmo com as diferenças de estados espirituais, ser cristão é estar inserido nessa família. e isso tem dois lados:

1-se oramos por nós, pelos mortos e pedimos as orações dos santos, essa comunhão é uma comunhão de amor pela sacrifício mútuo e pela generosidade. Isso implica na entrega voluntária pelo outro.

2-mas implica também em nos sacrificarmos uns pelos outros. Não é só orar pelos outros. É orar pelos outros como oramos como por nós mesmos. Quando oramos por nós mesmos, pedimos que Deus perdoe nossos pecados e pedimos não com palavras, mas fazendo metanoia, cheios de arrependimento, de remorso por termos ofendido a Deus e nos prostramos diante do Senhor cheios de humildade, livres de maldade, de sentimentos e pensamentos maus e blasfemos. Toda essa purificação, dificilmente alcançada, é nosso objetivo enquanto desejamos nos salvar, ao orarmos por nossas almas.

Mas e quanto às almas dos outros, e quanto às orações pela saúde e pela salvação de nossos pais, familiares e amigos? Rezamos por eles? E se rezamos, só repetimos as orações? Ou nos purificamos, olhamos para dentro de nós, pelos pecados DELES como se fossem nossos? É isso que implica também a comunhão dos santos, sofrer pelos pecados do mundo inteiro. Aguentar as penas de todos os roubos, assassinatos, violências, imoralidades e blasfêmias cometidas contra Deus. Ser cristão é se santificar continuamente e esse constante processo se dá principalmente pelo sofrimento que nos purifica, sofrimento pelos pecados do mundo inteiro que enche nossos olhos de água, tristeza e angústia pelo mundo que se afasta do Deus e, transbordantes do amor de Deus e a Ele pela humanidade, nós sofremos por todos esses pecados, pedimos perdão por eles, perdão com nossos lábios, corpo, membros, mente, coração e alma.

Sangrar em espírito pelos pecados do mundo inteiro, ser um Cristo, é esse nosso objetivo, nossa vocação, só assim nos libertamos e libertamos o mundo. Só essa beleza salvará o mundo. Só o Cristo renascendo em cada um de nós salvará o mundo e os seres humanos.

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